Ser ou não ser você: eis a questão. Eu acho que esse é o grande dilema de todos aqueles que, assim como eu, são adolescentes e passam por aquela agonizante e incessante jornada de busca por adaptação à sociedade e para descobrir quem é verdadeiramente você. É isso, você, você mesmo, apenas você, sem pose, sem maquiagem, nu diante de um espelho que reflete sua alma.
Porque na maioria das vezes as pessoas mascaram-se, abrem mão de serem elas mesmas para encaixarem-se em um grupo, e mesmo se tiverem os melhores amigos do mundo, de alguma forma, eles fazem alguma pressão e exercem uma influência sobre você. É praticamente impossível que seja o contrário, então caro leitor, não venha me dizer que não passou por isso, porque isso seria uma tremenda mentira.
Deixe-me ilustrar, duvido que se em uma sala de aula, houver um grupo inteiro de pessoas fanáticas por um livro e só falam dele, você não irá, ao menos, querer conhecê-lo ou lê-lo para falar sobre isso também, não que isso seja errado, inclusive eu não acho isso, mas essa situação pode até ser perigosa dependendo de quem for sua influência (fica a dica: faça como eu, por mais que se ache o rei da personalidade, o influenciável, nunca seja amigo de um drogado ou coisa do gênero, apesar de que eu acredito que eles podem se redimir). Outro perigo é isso chegar ao ponto de você ter uma crise existencial, isto é, não saber quem você é ou do que você realmente gosta.
Ultimamente, comecei a gostar de uma série de TV que não é bem da moda, é mais intelectual, quando disse isso, todos me olharam estranho, e nem quiseram experimentar. Porém, basta aparecer uma banda nova de loiros com tanquinhos e com refrões pegajosos, todo mundo ama. Escrevi esse texto como uma reflexão de quem eu sou e para discernir quais das minhas atitudes são realmente minhas.
O pior é o caso de aparecer alguém diferente, ele é vergonhosamente excluído e ridicularizado. É o “junte-se a nós ou dane-se”. Por exemplo, você chega a uma festa, todos estão bem vestidos, as meninas com roupas da moda, algumas mais ousadas, expondo até o que não pode, mas a pista de dança não está muito agitada e estão todos no canto sem dançar, estão apenas se movendo devagar de um lado para o outro no ritmo da música. Suponhamos que seja sua música favorita e você está roendo-se de vontade de dançar e cantar, o que você faria? Se todo mundo estivesse dançando e você soubesse dançar como eles, tudo bem, mas nesse caso você está sozinho; e eles vão:
Iriam rir de você.
Olhar para você.
E cochichar sobre você,
Fofocar, falar mal de você.
Até que não lhes reste mais fôlego, e não me venha dizer que nunca fez isso, até eu já fiz isso (o arrependimento depois é dose). É quase natural, parece que caçoar dos outros fortalece relações humanas. De novo para adaptar-se, é um assunto que todos riem e fazer rir é um quesito para fazer parte da turma. Nós somos muito maus, “nós”, que eu digo são os humanos. Entretanto, aquele que consegue se adaptar oprimindo os outros é tão perdido quanto aquele que só quer dançar. A diferença é que o primeiro tem a ilusão de que está tudo bem, de ter encontrado seu lugar e a si mesmo, todavia é só mais um que se integrou (e se entregou) ao grupo que está na moda, a mentora de todos. A grande contradição disso é que eles competem para ver quem está mais na moda e acaba sendo todo mundo igual, todos tentam ser mais iguais para serem diferentes. Essa ilusão de sentir-se completo por estar entre o grupo é algo engraçado, é como um sonho, é amar uma mentira. A ilusão é doce, por mais que saiba que é um sonho, você quer acreditar nele, mas depois a queda é feia (a desilusão, a verdade). A maioria das coisas as quais nos apegamos são ilusões, fechamos os olhos para tantas coisas, porque mentir para si mesmo é reconfortante. Por isso, quando sua piada acaba você continua fazendo outras, continua tentando encaixar-se, pois não foi o bastante para fazer parte do grupo. Há momentos em que você se arrepende de magoar os outros e então isso vai consumindo-o até você explodir ou você irá apenas reprimi-lo, o que é pior.
Imagine, então, voltando ao nosso exemplo da festa, se você não souber dançar e quiser apenas se mexer, fazer passos diferentes, até um pouco estranhos para mostrar que gostou da música, irá parecer muito mais ridículo, será taxado de louco e, provavelmente, nunca mais vai dançar. Algumas vezes está todo mundo dançando e você quer dançar também, mas se reprime porque não sabe dançar, isso também vai consumindo sua alma aos poucos.
Eu já cansei de ser reprimida ou reprimir, pois percebi que estou me juntando a eles e tentando me juntar ao mesmo tempo. Percebi o quanto são (ou será somos?) maus. Quero minha libertação, porque juntar-se a essa influências, os robôs e “Barbies” da moda, é um caminho (quase) sem volta.
Giovanna Pereira Paulucci, 29 de abril de 2010.