Apesar de as pessoas em geral julgarem saber
mais do que os pais, somente quem está ocupando este
papel conhece a imensa responsabilidade que acompanha a vinda
de um novo ser para a família. É comum ouvirmos
as frases “filho não vem com bula” ou “não
há receitas para criá-los”, ou a clássica,
“filhos, melhor não tê-los...”.
De
fato, a maternidade e a paternidade trazem questões
muito mais complexas e que não podem ser respondidas
a partir de um roteiro previamente elaborado. Por este motivo,
este texto não trata de apresentar fórmulas
prontas ou soluções garantidas para pais aflitos,
mas trazer algumas idéias e reflexões acerca
do assunto.
Antes de falarmos sobre limites, ou de como dizer “não”, gostaria de abordar uma questão
que parece banal, mas não é. Por incrível
que possa parecer, a capacidade de falar “não”
à criança começa pela possibilidade de
dizer “sim”. Muitas vezes, os pais talvez se esqueçam
de que os filhos são crianças e que, apesar
de demonstrarem grande inteligência e compreensão
de determinadas situações, estão, gradativamente,
descobrindo um mundo cada vez mais amplo e desconhecido.
Quando
adultos, nos esquecemos de que, num período de menos
de dois anos, as crianças têm que aprender a
respirar, comer, sentar, andar, falar, além de descobrir,
gradualmente, que a realidade nem sempre é como gostariam
que fosse. Por esse motivo, tendemos a esperar muito mais
da criança do que ela pode oferecer, deixando de prestar
atenção às suas comunicações
e, conseqüentemente, perdendo uma grande oportunidade
de aprender com ela.
Vou exemplificar com a questão dos brinquedos.
O brinquedo e as brincadeiras, para a criança, em diversos
momentos, terão a função de comunicar
vivências emocionais que a mesma pode não saber
nomear e das quais ela precisa para entrar em contato com
seus conteúdos internos. Por exemplo, pode bater no
brinquedo quando está com raiva ou feliz; desmontar
ou quebrar, por curiosidade ou para demonstrar desaprovação.
Para um pai que comprou um brinquedo caro para o filho, isso
pode parecer um descuido ou uma provocação da
criança e são comuns frases do tipo: “Você
não tem pena do papai/mamãe?” ou, então,
“Não faça isso com seu brinquedo tão
caro!”. Se o brinquedo é da criança, por
que ela não poderia quebrá-lo? Além disso,
a sua agressividade direcionada ao brinquedo pode ser uma
forma de preservar suas relações com pessoas
da família, como um irmãozinho, a mãe,
o pai, etc.
Uma criança que ouve que não pode
chorar, ficar triste, ter raiva do irmãozinho que vai
chegar, ter medo de injeção, ter medo de escuro,
ter ciúmes do papai e da mamãe, curiosidade,
etc., perde a oportunidade de entrar em contato com estas
vivências emocionais e aprender a nomeá-las para
poder falar delas sem ter que demonstrá-las em seus
atos.
Assim, se uma criança brinca de bater na boneca
diante da mãe grávida e isso possibilita à
família discutir a chegada de um novo membro e sobre
como isso afeta a todos, respeitando que uns fiquem mais bravos
que outros, esta mesma criança, provavelmente, vai
aprender a falar sobre o que sente em relação
ao irmãozinho e não vai precisar fazer nada
efetivamente contra ele. A família pode ser uma grande
facilitadora neste difícil processo que é o
de conhecer o mundo, suas limitações e seus
desafios. Então, se o “sim” é tão
importante, porque temos que estabelecer limites para os filhos?
Vou descrever uma cena que presenciei recentemente, para começar
a abordar esta questão:
Entram no ônibus de viagem uma criança,
de uns três anos, a mãe e a avó. A criança,
imediatamente, senta-se no banco, ao lado da janela. A mãe
diz: “filho, você vai no meu colo”. A criança
responde: “não, eu vou no banco”. A avó
tenta ajudar: “se você sentar aí, eu vou
ter que sentar lá longe”. A criança dá
de ombros. A avó se senta no banco ao lado da criança,
a mãe fica em pé, impaciente. A avó diz:
“Está bem, você quer ir sentado no banco?
Então terá que ir lá atrás, no
final do ônibus, sozinho”. A criança grita:
“Oba!” e sai correndo para o final do ônibus.
A mãe corre, traz o menino no colo, que vem esperneando,
e diz para a avó: “Na volta, vou ter que comprar
mais uma passagem para este chatinho não dar trabalho”.
O que me chama a atenção na situação
descrita é que em nenhum momento a mãe e a avó
esclarecem à criança acerca da limitação
concreta – o fato de terem somente dois bancos para
ocuparem. As intervenções da avó eram
mais uma tentativa de eliminar o desejo do menino de se sentar
no banco do que uma conscientização de que há
uma restrição concreta – somente duas
passagens – e a necessidade de terem que buscar uma
solução para a situação. Além
disso, as alternativas apresentadas à criança
eram totalmente inviáveis, pois os bancos do ônibus
estavam todos ocupados, o que significa que as ameaças
da avó jamais seriam cumpridas. Esta cena foi escolhida,
dentre tantas as que já presenciei, para ilustrar a
questão de que os limites e as frustrações
são condições inerentes à realidade
em que vivemos e não podemos fugir deles. Assim, uma
das principais funções dos pais é estabelecer
limites aos filhos e auxiliá-los a tolerar a realidade
que se apresenta.
O que pode atrapalhar esta tarefa dos pais são
os sentimentos contraditórios que os habitam. Sabemos,
mas nem sempre reconhecemos, que sentimentos de amor e ódio
fazem parte de nosso repertório e estão presentes
em todas as relações. Pais e filhos não
estão isentos disso. Muitas pessoas, porém,
em função da educação recebida
ou de questões religiosas, não reconhecem os
próprios sentimentos negativos.
Por um mecanismo inconsciente,
os sentimentos não permitidos são “transformados”
em seu contrário (na verdade, o ódio não
vira amor, mas se disfarça de amor), caracterizando,
por exemplo, a superproteção. Os pais, então,
permitem que a criança faça tudo o que quiser,
pois não conseguem suportar o ódio manifestado
pelo filho no momento do “não”. Para estabelecer
um limite à criança e suportar a reação
que vem dela é necessário que os pais possam
reconhecer os próprios sentimentos contraditórios
que os habitam, acreditando que o amor será o vencedor.
O sentimento não reconhecido, por outro lado, ameaça
por parecer ser incontrolável e muito maior do que
é.
Neste ponto, retornamos à questão anterior:
tanto menos difícil será suportar as restrições
quanto maior for a compreensão do indivíduo
sobre seus sentimentos diante das situações.
Ou seja, uma criança a quem o mundo é apresentado
repleto de significados, cujas relações se dão
de forma a perceber o grande amor que os pais nutrem por ela,
terá maiores recursos para lidar com as limitações
estabelecidas.
Por outro lado, se o “sim” e o
“não” dependem do humor dos pais, ou seja,
não ficam muito claras as razões das proibições
e não há muita regularidade nelas, sendo permitida
num dia uma atitude que seria proibida no outro, a criança
tende a ficar sem uma referência e a não aceitar
as regras impostas pelos pais. Uma outra coisa comum é
que os pais reajam de acordo com a conseqüência
do ato da criança e não a sua intencionalidade.
Por exemplo, uma criança está chutando a bola
na sala de estar e a mãe diz que ela deve parar. A
bola sai, acidentalmente, pela janela, e cai no quintal do
vizinho, sendo imediatamente destruída pelo cachorro.
A mãe ri e diz para a criança: “bem-feito,
agora vai ficar sem a bola para aprender a não me desrespeitar”.
A mesma mãe, no entanto, reagiria de forma bem diferente,
caso o dano causado fosse o seu vaso de cristal: gritaria
com a criança, a colocaria de castigo e ficaria sem
falar com ela por algum tempo. A regra desrespeitada, nos
dois casos, foi a mesma, mas as conseqüências foram
diferentes. A reação da mãe não
foi proporcional ao ato, mas ao que decorreu dele.
Tal atitude
da mãe deixa a criança confusa, pois ela acaba
acreditando que o que estava errado não era a quebra
da regra ou do limite, mas a conseqüência dela
– que pode ou não ter agradado a mãe.
Como não é possível controlar o acaso,
a criança não vai procurar respeitar o limite,
da próxima vez, mas torcer para que a sorte o ajude
ou para que a mãe não descubra o que fez.
Não podemos nos esquecer que, dependendo
da idade, das características da criança e do
contexto familiar, algumas restrições impostas
pelos pais não são respeitadas. Por este motivo,
determinados cuidados devem ser tomados, como instalar grades
e redes de proteção em janelas e portas, protetores
de tomadas, manter remédios e objetos perigosos em
local seguro, etc. No entanto, os pais devem ficar atentos
para não adotarem uma postura exagerada. Eu costumo
dizer que alguns pais tentam “acolchoar” o mundo
para seus filhos. O que significa isso? Às vezes, fica
muito difícil para um pai saber o quanto deve proteger
o filho e com quais conseqüências deve deixar o
filho arcar. Vou contar uma pequena história e o trecho
de um famoso mito para discutir este assunto.
Primeiramente,
a relação da girafa com o filhote:
O parto da girafa é feito com ela em pé, de
modo que a primeira coisa que
acontece com o
recém-nascido é uma queda de
aproximadamente dois
metros. Ainda tonto, o animal tenta firmar-se nas quatro patas,
mas a mãe tem
um comportamento estranho: ela dá um leve chute, e
a girafinha cai de novo ao
solo. Tenta levantar-se, e é de novo derrubada. O processo
se repete várias vezes, até que o recém-nascido,
exausto, já não consegue mais ficar de pé.
Neste momento, a mãe novamente o instiga com a pata,
forçando a levantar-se. E já não o derruba
mais. A explicação é simples: para sobreviver
aos animais, levantar-se rápido. A
aparente crueldade da mãe encontra total apoio em um
provérbio árabe: "Às
vezes, para ensinar algo bom, é preciso ser um pouco
rude”.
Agora, um resumo do mito de Ícaro
e Dédalo :
Dédalo, grande construtor (foi ele quem projetou o
labirinto que aprisionou o Minotauro), depois de alguns problemas
com o rei Minos, teve que abandonar a ilha de Creta, junto
com o filho, Ícaro. O pai fez umas asas de cera e penas
e advertiu a Ícaro de que não deveria se aproximar
demasiadamente do sol, pois o calor do sol derreteria as asas.
No entanto, assim que voaram e se afastaram de Creta, Ícaro
decidiu voar mais alto, desobedecendo o pai, e tendo suas
asas derretidas pelo sol, caiu no mar e morreu.
Estes dois trechos abordados acima nos dão uma certa
dimensão de como é difícil saber até
onde se deve ir e de que forma conduzir a educação
dos filhos. No primeiro, o da girafa, podemos imaginar que
a mãe esteja sendo cruel com o filhote. Mas, ao observarmos
o ambiente e as adversidades pelas quais este pequeno ser
vai passar, percebemos que a sua sobrevivência pode
depender desta pequena lição aprendida “no
berço”. Se transportarmos para as experiências
humanas, muitas vezes, aos olhos de outros, os pais parecem
insensíveis ou cruéis. No entanto, o filho pode
estar solicitando algo para o qual não está
ainda preparado e cujas conseqüências não
é capaz de suportar. O mito do Ícaro ilustra
bem isso. Sem querer me deter no mito ou nas razões
do pai, que exigiria um estudo mais aprofundado, posso inferir
que o filho ainda não tinha condições
de “voar” sozinho, ou seja, ainda precisava de
um acompanhamento mais próximo do pai, antes de se
lançar a experiências mais autônomas. Não
podemos nos esquecer, no entanto, de que nem tudo no destino
dos filhos depende dos pais e em alguns momentos, eles vão
ter que arcar com as conseqüências de suas próprias
escolhas, por piores que sejam.
Encerro este texto com a consciência de que não
trouxe respostas, mas fico com a esperança de ter podido,
com ele, abrir um espaço para a reflexão e criar
possibilidades de buscar novos caminhos e alternativas nesta
verdadeira “arte” que é a educação
de filhos.