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Bula para filhos – ou considerações sobre a "arte" de educar e estabelecer limites - Solange Aparecida Emílio

Limites

Apesar de as pessoas em geral julgarem saber mais do que os pais, somente quem está ocupando este papel conhece a imensa responsabilidade que acompanha a vinda de um novo ser para a família. É comum ouvirmos as frases “filho não vem com bula” ou “não há receitas para criá-los”, ou a clássica, “filhos, melhor não tê-los...”.
De fato, a maternidade e a paternidade trazem questões muito mais complexas e que não podem ser respondidas a partir de um roteiro previamente elaborado. Por este motivo, este texto não trata de apresentar fórmulas prontas ou soluções garantidas para pais aflitos, mas trazer algumas idéias e reflexões acerca do assunto.

Antes de falarmos sobre limites, ou de como dizer “não”, gostaria de abordar uma questão que parece banal, mas não é. Por incrível que possa parecer, a capacidade de falar “não” à criança começa pela possibilidade de dizer “sim”. Muitas vezes, os pais talvez se esqueçam de que os filhos são crianças e que, apesar de demonstrarem grande inteligência e compreensão de determinadas situações, estão, gradativamente, descobrindo um mundo cada vez mais amplo e desconhecido.
Quando adultos, nos esquecemos de que, num período de menos de dois anos, as crianças têm que aprender a respirar, comer, sentar, andar, falar, além de descobrir, gradualmente, que a realidade nem sempre é como gostariam que fosse. Por esse motivo, tendemos a esperar muito mais da criança do que ela pode oferecer, deixando de prestar atenção às suas comunicações e, conseqüentemente, perdendo uma grande oportunidade de aprender com ela.


Vou exemplificar com a questão dos brinquedos. O brinquedo e as brincadeiras, para a criança, em diversos momentos, terão a função de comunicar vivências emocionais que a mesma pode não saber nomear e das quais ela precisa para entrar em contato com seus conteúdos internos. Por exemplo, pode bater no brinquedo quando está com raiva ou feliz; desmontar ou quebrar, por curiosidade ou para demonstrar desaprovação.

Para um pai que comprou um brinquedo caro para o filho, isso pode parecer um descuido ou uma provocação da criança e são comuns frases do tipo: “Você não tem pena do papai/mamãe?” ou, então, “Não faça isso com seu brinquedo tão caro!”. Se o brinquedo é da criança, por que ela não poderia quebrá-lo? Além disso, a sua agressividade direcionada ao brinquedo pode ser uma forma de preservar suas relações com pessoas da família, como um irmãozinho, a mãe, o pai, etc.

Uma criança que ouve que não pode chorar, ficar triste, ter raiva do irmãozinho que vai chegar, ter medo de injeção, ter medo de escuro, ter ciúmes do papai e da mamãe, curiosidade, etc., perde a oportunidade de entrar em contato com estas vivências emocionais e aprender a nomeá-las para poder falar delas sem ter que demonstrá-las em seus atos.

Assim, se uma criança brinca de bater na boneca diante da mãe grávida e isso possibilita à família discutir a chegada de um novo membro e sobre como isso afeta a todos, respeitando que uns fiquem mais bravos que outros, esta mesma criança, provavelmente, vai aprender a falar sobre o que sente em relação ao irmãozinho e não vai precisar fazer nada efetivamente contra ele. A família pode ser uma grande facilitadora neste difícil processo que é o de conhecer o mundo, suas limitações e seus desafios. Então, se o “sim” é tão importante, porque temos que estabelecer limites para os filhos? Vou descrever uma cena que presenciei recentemente, para começar a abordar esta questão:
Entram no ônibus de viagem uma criança, de uns três anos, a mãe e a avó. A criança, imediatamente, senta-se no banco, ao lado da janela. A mãe diz: “filho, você vai no meu colo”. A criança responde: “não, eu vou no banco”. A avó tenta ajudar: “se você sentar aí, eu vou ter que sentar lá longe”. A criança dá de ombros. A avó se senta no banco ao lado da criança, a mãe fica em pé, impaciente. A avó diz: “Está bem, você quer ir sentado no banco? Então terá que ir lá atrás, no final do ônibus, sozinho”. A criança grita: “Oba!” e sai correndo para o final do ônibus. A mãe corre, traz o menino no colo, que vem esperneando, e diz para a avó: “Na volta, vou ter que comprar mais uma passagem para este chatinho não dar trabalho”.

O que me chama a atenção na situação descrita é que em nenhum momento a mãe e a avó esclarecem à criança acerca da limitação concreta – o fato de terem somente dois bancos para ocuparem. As intervenções da avó eram mais uma tentativa de eliminar o desejo do menino de se sentar no banco do que uma conscientização de que há uma restrição concreta – somente duas passagens – e a necessidade de terem que buscar uma solução para a situação. Além disso, as alternativas apresentadas à criança eram totalmente inviáveis, pois os bancos do ônibus estavam todos ocupados, o que significa que as ameaças da avó jamais seriam cumpridas. Esta cena foi escolhida, dentre tantas as que já presenciei, para ilustrar a questão de que os limites e as frustrações são condições inerentes à realidade em que vivemos e não podemos fugir deles. Assim, uma das principais funções dos pais é estabelecer limites aos filhos e auxiliá-los a tolerar a realidade que se apresenta.

O que pode atrapalhar esta tarefa dos pais são os sentimentos contraditórios que os habitam. Sabemos, mas nem sempre reconhecemos, que sentimentos de amor e ódio fazem parte de nosso repertório e estão presentes em todas as relações. Pais e filhos não estão isentos disso. Muitas pessoas, porém, em função da educação recebida ou de questões religiosas, não reconhecem os próprios sentimentos negativos.

Por um mecanismo inconsciente, os sentimentos não permitidos são “transformados” em seu contrário (na verdade, o ódio não vira amor, mas se disfarça de amor), caracterizando, por exemplo, a superproteção. Os pais, então, permitem que a criança faça tudo o que quiser, pois não conseguem suportar o ódio manifestado pelo filho no momento do “não”. Para estabelecer um limite à criança e suportar a reação que vem dela é necessário que os pais possam reconhecer os próprios sentimentos contraditórios que os habitam, acreditando que o amor será o vencedor. O sentimento não reconhecido, por outro lado, ameaça por parecer ser incontrolável e muito maior do que é.

Neste ponto, retornamos à questão anterior: tanto menos difícil será suportar as restrições quanto maior for a compreensão do indivíduo sobre seus sentimentos diante das situações. Ou seja, uma criança a quem o mundo é apresentado repleto de significados, cujas relações se dão de forma a perceber o grande amor que os pais nutrem por ela, terá maiores recursos para lidar com as limitações estabelecidas.

Por outro lado, se o “sim” e o “não” dependem do humor dos pais, ou seja, não ficam muito claras as razões das proibições e não há muita regularidade nelas, sendo permitida num dia uma atitude que seria proibida no outro, a criança tende a ficar sem uma referência e a não aceitar as regras impostas pelos pais. Uma outra coisa comum é que os pais reajam de acordo com a conseqüência do ato da criança e não a sua intencionalidade.

Por exemplo, uma criança está chutando a bola na sala de estar e a mãe diz que ela deve parar. A bola sai, acidentalmente, pela janela, e cai no quintal do vizinho, sendo imediatamente destruída pelo cachorro. A mãe ri e diz para a criança: “bem-feito, agora vai ficar sem a bola para aprender a não me desrespeitar”. A mesma mãe, no entanto, reagiria de forma bem diferente, caso o dano causado fosse o seu vaso de cristal: gritaria com a criança, a colocaria de castigo e ficaria sem falar com ela por algum tempo. A regra desrespeitada, nos dois casos, foi a mesma, mas as conseqüências foram diferentes. A reação da mãe não foi proporcional ao ato, mas ao que decorreu dele.

Tal atitude da mãe deixa a criança confusa, pois ela acaba acreditando que o que estava errado não era a quebra da regra ou do limite, mas a conseqüência dela – que pode ou não ter agradado a mãe. Como não é possível controlar o acaso, a criança não vai procurar respeitar o limite, da próxima vez, mas torcer para que a sorte o ajude ou para que a mãe não descubra o que fez.

Não podemos nos esquecer que, dependendo da idade, das características da criança e do contexto familiar, algumas restrições impostas pelos pais não são respeitadas. Por este motivo, determinados cuidados devem ser tomados, como instalar grades e redes de proteção em janelas e portas, protetores de tomadas, manter remédios e objetos perigosos em local seguro, etc. No entanto, os pais devem ficar atentos para não adotarem uma postura exagerada. Eu costumo dizer que alguns pais tentam “acolchoar” o mundo para seus filhos. O que significa isso? Às vezes, fica muito difícil para um pai saber o quanto deve proteger o filho e com quais conseqüências deve deixar o filho arcar. Vou contar uma pequena história e o trecho de um famoso mito para discutir este assunto.


Primeiramente, a relação da girafa com o filhote:

O parto da girafa é feito com ela em pé, de modo que a primeira coisa que acontece com o recém-nascido é uma queda de aproximadamente dois metros. Ainda tonto, o animal tenta firmar-se nas quatro patas, mas a mãe tem um comportamento estranho: ela dá um leve chute, e a girafinha cai de novo ao solo. Tenta levantar-se, e é de novo derrubada. O processo se repete várias vezes, até que o recém-nascido, exausto, já não consegue mais ficar de pé. Neste momento, a mãe novamente o instiga com a pata, forçando a levantar-se. E já não o derruba mais. A explicação é simples: para sobreviver aos animais, levantar-se rápido. A aparente crueldade da mãe encontra total apoio em um provérbio árabe: "Às vezes, para ensinar algo bom, é preciso ser um pouco rude”.


Agora, um resumo do mito de Ícaro e Dédalo :

Dédalo, grande construtor (foi ele quem projetou o labirinto que aprisionou o Minotauro), depois de alguns problemas com o rei Minos, teve que abandonar a ilha de Creta, junto com o filho, Ícaro. O pai fez umas asas de cera e penas e advertiu a Ícaro de que não deveria se aproximar demasiadamente do sol, pois o calor do sol derreteria as asas. No entanto, assim que voaram e se afastaram de Creta, Ícaro decidiu voar mais alto, desobedecendo o pai, e tendo suas asas derretidas pelo sol, caiu no mar e morreu.

Estes dois trechos abordados acima nos dão uma certa dimensão de como é difícil saber até onde se deve ir e de que forma conduzir a educação dos filhos. No primeiro, o da girafa, podemos imaginar que a mãe esteja sendo cruel com o filhote. Mas, ao observarmos o ambiente e as adversidades pelas quais este pequeno ser vai passar, percebemos que a sua sobrevivência pode depender desta pequena lição aprendida “no berço”. Se transportarmos para as experiências humanas, muitas vezes, aos olhos de outros, os pais parecem insensíveis ou cruéis. No entanto, o filho pode estar solicitando algo para o qual não está ainda preparado e cujas conseqüências não é capaz de suportar. O mito do Ícaro ilustra bem isso. Sem querer me deter no mito ou nas razões do pai, que exigiria um estudo mais aprofundado, posso inferir que o filho ainda não tinha condições de “voar” sozinho, ou seja, ainda precisava de um acompanhamento mais próximo do pai, antes de se lançar a experiências mais autônomas. Não podemos nos esquecer, no entanto, de que nem tudo no destino dos filhos depende dos pais e em alguns momentos, eles vão ter que arcar com as conseqüências de suas próprias escolhas, por piores que sejam.
Encerro este texto com a consciência de que não trouxe respostas, mas fico com a esperança de ter podido, com ele, abrir um espaço para a reflexão e criar possibilidades de buscar novos caminhos e alternativas nesta verdadeira “arte” que é a educação de filhos.


Extraído da internet: http://hp.vento.com.br/~bertges/pensamentos.html#A_mãe_girafa_faz_o_filho